"Quando der tempo, eu faço."

22.2.06

Uno, dos, tres, catorce! (O Bono Vox sabe contar???)

O U2 está no meu Top 3 (junto com Beatles e Queen). E eles vieram para o Brasil. De novo. Pela segundo vez. Mas meu bolso é fraco, raquítico, e não me permitiu ir ver o espetáculo de perto. Resignado, assisti tudo pela Globo no meu quarto.

Mas os quatro irlandeses são fodas. Muito fodas. Dizem que Sílvio Santos exclamou, enquanto assistia a emissora rival:

- Eles não são fracos, não, hein!

Eu me senti dentro do Morumbi, com a diferença de que não cantava alto as músicas em casa. Teve momentos em que não consegui segurar algumas lágrimas. Sim, lágrimas. Não pelas letras emocionantes, não pelo exemplo de consciência política e humana que eles tem. O que me emociona é a força que a música da banda tem para mobilizar milhões de fãs em todo mundo, que cantam junto e escutam, ouvem, percebem cada mensagem passada através das palavras, das batidas, das melodias e dos acordes. Cada detalhe é percebido, poucos estão ali apenas para escutar "músicas legais". É diferente de ir em um show dos Stones (outro bom show, mas em um outro nível), onde se celebra a pura e simples diversão do puro e simples rock'n'roll - o que é louvável, necessário e muito bom também. Mas é diferente.

Que outra banda mostraria a Declaração dos Direitos Humanos, por exemplo, e tocaria "Pride" em seguida (música que homenageia Martin Luther King, e que tem frases como "They took your life, they could not take your pride" - traduzindo: "Eles tiraram a sua vida, mas não conseguiram tirar o seu orgulho")? Em um nível mais intimista: que outra banda tocaria "Sometimes you can't make it on your own" e diria "para o meu pai...to my father", onde há versos que dizem "Nós somos a mesma alma. Não preciso ouvir você dizer que se não fossemos tão parecidos, você gostaria de mim um pouco mais"? É tocar na ferida mais íntima e aberta na frente de milhões de pessoas, através de uma melodia belíssima. E ainda se emocionar com isso, mesmo tocando a canção em todos os shows da turnê.

Musicalmente, o show foi impecável. Além das clássicas e das melhores do último disco, ótimas surpresas, como duas músicas que não eram tocadas ao vivo desde a turnê "Zoo TV": "The fly" e "Zoo Station". Só tenho duas reclamações: minhas duas músicas prediletas deles não apareceram: "Stay (far away, so close)" e "Walk On". Mas também já seria pedir demais.

Concluindo: o show dos Stones foi FODA. Rock nu e cru. Na essência. Aliás, sem Stones, não acredito que existiria o U2 que a gente conhece. Mas os irlandeses não só tocam a música. Não que os Stones não curtam o som que reproduzem no palco e nos discos. Mas o U2 chegou a um nível que só os shows do Queen e do Pink Floyd tinham conseguido antes. Eles conseguiram a vibração musical ao vivo do Queen e o espetáculo visual do Pink Floyd. Eles fizeram cada telespectador sentir como estivesse lá, na frente do palco, sentindo a pulsação de cada instrumento e das 70 mil pessoas sortudas que presenciaram o espetáculo. Beirou a perfeição.

Ah, eu gravei o show...

Poeminhas... já perdi a conta

No gueto, seco, reto
Rotas linhas de pétalas pálidas
O mórbido aroma refresca o ar
Me traz as lembranças mais cálidas

De um sem-número de coisas
Algumas vívidas, outras desfalecidas
Guardadas num canto do quarto
Mais "ao léu" do que "esquecidas".